Na prática, os dados publicados pelo INE significam duas coisas muito simples: vai ser preciso trabalhar mais tempo para ter reforma completa e vai custar mais dinheiro sair mais cedo do mercado de trabalho.
Segundo as contas confirmadas hoje pelo Instituto Nacional de Estatística, a esperança média de vida aos 65 anos aumentou para 20,19 anos no período entre 2023 e 2025. Este indicador é usado automaticamente para calcular a idade normal da reforma no regime geral da Segurança Social.
Assim, quem se reformar em 2027 só terá acesso à pensão sem cortes aos 66 anos e 11 meses. São mais dois meses do que em 2026. E em apenas dois anos, a idade da reforma sobe quatro meses.
Isto acontece porque o sistema português liga diretamente a idade da reforma à esperança média de vida. Quanto mais anos, em média, os portugueses vivem depois dos 65 anos, mais tarde passa a ser a idade legal para receber a pensão completa.
Durante os anos da pandemia aconteceu exatamente o contrário. A mortalidade associada à covid-19 fez descer a esperança média de vida e, pela primeira vez, a idade da reforma chegou mesmo a baixar. Em 2023 houve uma redução de três meses, algo inédito desde a criação desta fórmula automática.
Mas agora a tendência voltou a inverter-se.
O outro impacto importante é para quem pensa pedir reforma antecipada. O chamado fator de sustentabilidade vai subir de 16,9% para 17,63%.
Traduzindo isto para português simples: uma pessoa que peça a reforma antecipada e que não esteja abrangida por nenhuma exceção perde logo 17,63% da pensão. E esse corte é definitivo para toda a vida. É quase 20% de corte.
Mas atenção: não fica por aqui.
Além deste corte, há ainda uma penalização adicional de 0,5% por cada mês de antecipação em relação à idade legal da reforma.
Por exemplo, imagine alguém que se reforma dois anos antes da idade legal. São 24 meses de antecipação. Só aqui perde mais 12% da pensão (24 x 0,5%). Somando o fator de sustentabilidade, pode facilmente ultrapassar cortes totais próximos dos 30%.
Ou seja, uma pensão prevista de 1.000 euros pode cair para pouco mais de 700 euros mensais. E essa diferença mantém-se todos os meses até ao fim da vida.
Há, no entanto, exceções importantes que muitas pessoas desconhecem.
Quem tiver 60 anos de idade e 40 anos de descontos pode pedir reforma antecipada sem sofrer o corte do fator de sustentabilidade. Mas continua sujeito à penalização de 0,5% por cada mês de antecipação.
Já os trabalhadores com carreiras contributivas muito longas podem escapar a todas as penalizações. É o caso de quem tenha:
- Pelo menos 60 anos de idade;
- 46 anos ou mais de descontos;
- E tenha começado a trabalhar antes dos 16 anos.
Nessas situações, é possível reformar-se antes da idade legal sem qualquer corte na pensão.
O problema é que muitas pessoas pedem a reforma antecipada sem fazer contas rigorosas. E um erro destes pode custar dezenas de milhares de euros ao longo da reforma.
O que pode fazer agora para se proteger?
A primeira coisa é perceber exatamente quantos anos de descontos já tem e qual será a sua idade pessoal de reforma. Muitas vezes, as carreiras contributivas permitem antecipações sem tantos cortes como as pessoas imaginam.
Outra dica importante é pedir simulações na Segurança Social antes de tomar qualquer decisão. Pode simular várias hipóteses:
- reforma já;
- reforma daqui a 1 ano;
- reforma daqui a 2 anos.
Às vezes, trabalhar apenas mais alguns meses pode aumentar bastante a pensão e evitar penalizações permanentes.
Também vale a pena acompanhar regularmente o simulador da Segurança Social Direta. Pequenas diferenças nos anos de descontos ou na idade podem mudar completamente as regras aplicáveis.
Há ainda um detalhe relevante: como a idade legal da reforma continua a subir quase todos os anos, quem hoje tem 50 ou 55 anos deve preparar-se para trabalhar durante mais tempo do que imaginava há alguns anos.
E isto reforça uma ideia cada vez mais importante: depender apenas da reforma da Segurança Social pode tornar-se um risco financeiro sério no futuro. Quanto mais cedo começar a criar uma poupança complementar — seja através de investimentos, PPR, ETFs, certificados de aforro ou outras soluções — maior será a liberdade para decidir quando quer realmente deixar de trabalhar.
É aqui que entra a literacia financeira de que falamos tantas vezes.