[Introdução - Pedro Andersson]
Olá! Sou o Pedro Andersson, jornalista especializado em finanças pessoais, e este é o Vamos a Contas, um episódio bónus, especial e semanal, do podcast Contas-Poupança. Respondo às vossas perguntas em áudio que enviaram para o número do WhatsApp 92 775 37 37. A sua pergunta é muito importante! Vamos à dúvida desta semana.
[Margarida, ouvinte do podcast]
Olá, bom dia. Chamo-me Margarida e gostava de colocar uma dúvida ao Pedro. Nós temos um crédito à habitação de 55 mil euros, mais ou menos, e, neste momento, temos esse dinheiro para abater o crédito todo.
A minha dúvida é: o meu marido, entretanto, está desempregado e queria perceber o que faz sentido. Se é abater já o crédito, visto que temos uma taxa fixa, ou se é só depois de esta taxa fixa passar, que será em dezembro, abatê-lo e colocar este valor a render, sendo que já me fui informando sobre isso e a diferença seria de pouco mais de 250 euros.
Gostava de saber qual seria a melhor maneira de atuar nesta situação. Muito obrigada.
[Pedro Andersson]
Olá! Muito obrigado pela sua pergunta, porque permite desenvolver aqui alguns conceitos muito importantes quando falamos de finanças pessoais e da forma como devemos decidir, ou que critérios podemos utilizar para decidir, amortizar ou não o nosso crédito à habitação, sobretudo quando temos circunstâncias muito específicas.
Vou então fazer um breve resumo do que eu entendi da sua pergunta. Tem 55 mil euros de crédito à habitação e pode liquidá-lo imediatamente, o que é uma excelente hipótese. Só que tem o seu marido desempregado e, além disso, tem taxa mista, sendo que a parte fixa será até ao final do ano.
Isto permite-nos desenvolver alguns conceitos sobre o que devemos levar em conta quando temos de tomar uma decisão deste tipo.
Primeiro ponto: é sempre positivo liquidar ou amortizar, mesmo que seja pouco dinheiro, o nosso crédito à habitação. Falta, no entanto, um detalhe muito importante: saber se já tem ou não o seu fundo de emergência e se esses 55 mil euros são para além desse fundo de emergência.
Porque é que isto é extremamente importante? Porque uma situação de desemprego na família é uma emergência. O fundo de emergência serve para este tipo de situações. Neste momento, não sabe quanto tempo é que o seu marido vai demorar até voltar a ter emprego, que tipo de emprego terá e que rendimentos virão desse novo trabalho.
Portanto, tem aqui uma situação grave de grande instabilidade, uma incógnita na vossa vida que devem levar em conta. É um critério extremamente importante. Eu diria que o principal critério agora, aquilo que deve ser mais importante para vocês, é a liquidez.
Liquidez em que sentido? Ter dinheiro disponível para manter a qualidade de vida da vossa família, apesar do desemprego de um dos membros do agregado familiar.
Por isso, primeiro ponto: eu não liquidaria na totalidade o meu crédito à habitação enquanto um elemento da família estiver desempregado e não estiver a ter rendimentos ou a contribuir com rendimentos para as despesas normais da família.
Este é o primeiro ponto. O fundo de emergência, ou ter dinheiro disponível, é fundamental. E ainda bem que o têm quando surgem estas situações. É para isso que serve.
Segundo ponto: têm, neste momento, taxa mista ou taxa fixa até ao final do ano. Isto quer dizer que, uma vez que está tão perto, faltam poucos meses, deixam de ter uma penalização de 2% e passam a ter apenas uma penalização de 0,5%, que é a penalização quando amortizamos em taxa variável.
Eu diria que valerá com certeza a pena, caso o queiram fazer, esperar pelo ano que vem. Ou seja, só amortizar, uma vez que está tão perto, quando tiverem novamente taxa variável. Só aí vão pagar menos três quartos da penalização que teriam de pagar.
Não é nada do outro mundo, mas são 20 euros por cada mil euros que amortizarem, em vez de cinco euros por cada mil euros que amortizarem. Ainda são algumas centenas de euros.
Voltando um bocadinho atrás: mesmo que decidam amortizar a totalidade do crédito, nunca fiquem descalços. Ou seja, havendo ainda por cima alguém desempregado na família, diria que o fundo de emergência, que pode ser entre seis meses e um ano, neste caso deveria ser, enquanto a situação não se resolver, quase um valor sagrado. Idealmente, um fundo de emergência de um ano e meio até dois anos.
Por exemplo, 20 mil euros. Estou a tirar um valor um bocadinho arbitrário, mas eu não amortizaria na totalidade o crédito à habitação.
E mesmo que agora a situação deixe de se colocar porque o seu marido volta a ter trabalho, já sabe: entre 10 mil, 15 mil, 20 mil euros, ou aquilo que vocês acharem apropriado para as vossas circunstâncias, deve existir sempre enquanto fundo de emergência, sempre, para o resto das vossas vidas.
Só amortizaria o que sobrasse depois de definirem o vosso fundo de emergência. Portanto, aquilo que devem fazer é: uma vez que a solução mais prudente é não amortizar, pelo menos não tenham esse dinheiro parado à ordem ou num depósito a prazo miserável.
Neste momento em que estou a gravar este episódio, a perspetiva é que a Euribor a três meses suba. Portanto, pelo menos, os certificados de aforro são uma boa opção para ter esse dinheiro, na medida em que, durante os primeiros três meses, não podem resgatar, mas, assim que passarem esses três meses, o dinheiro fica totalmente disponível e podem resgatar o que quiserem, parte ou a totalidade.
Além disso, estará a render mais de 2%, em princípio, enquanto a Euribor se mantiver elevada. Poderá até, nos próximos meses, atingir o máximo possível previsto para a série F dos certificados de aforro, que é 2,5%.
Portanto, pelo menos isso façam, sem nenhuma dúvida: ponham esse dinheiro a render, mas acima de 2% ao ano, ou pelo menos com essa perspetiva. E não arrisquem esse dinheiro nesta fase em que há uma situação de desemprego.
Depois, quando o seu marido voltar a ter trabalho e esse trabalho for estável, então podemos ter a conversa seguinte: nem tem de ser tudo, nem tem de ser nada. Há aqui vários meios-termos.
Tendo o fundo de emergência, podem amortizar uma determinada percentagem do valor acima desse fundo e a outra parte pode ser usada, caso ainda não o estejam a fazer, para começar a preparar a vossa reforma com um bom PPR ou com um ETF com o qual se sintam confortáveis, para aí sim começarem também a multiplicar o vosso dinheiro.
Espero ter respondido à sua questão e, sobretudo, chamado a atenção para os cuidados que devemos ter em situações de maior instabilidade na nossa vida. É muito importante não tomarmos decisões impulsivas.
Muito obrigado por me terem acompanhado em mais esta boleia financeira.
Boas poupanças!
Aprenda a gerir melhor o seu dinheiro
Nesta conversa, analisamos os prós e os contras de amortizar já o crédito ou manter uma parte significativa das poupanças como rede de segurança. O que pesa mais nesta decisão: a tranquilidade de ficar sem dívidas ou a segurança de ter dinheiro disponível para enfrentar imprevistos?
Falamos de fundo de emergência, risco financeiro, taxa de esforço, juros futuros e das perguntas que deve fazer antes de tomar uma decisão que pode ter impacto durante muitos anos.
Uma situação real que mostra que as melhores decisões financeiras nem sempre são as mais óbvias.
Boas poupanças!
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Este episódio contou com sonoplastia de Filipe Cruz (IG: @filipe.cruz470)
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