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Trade Republic chega a Portugal com IBAN português e promete 3% à ordem. Vale a pena mudar de banco?

Há um novo banco a operar oficialmente em Portugal com IBAN português e chega com uma promessa que dificilmente passa despercebida: pagar 3% de juros ao ano sobre o dinheiro à ordem, sem obrigar a prender o capital em depósitos a prazo. Será que é uma hipótese a considerar?

Pedro Andersson

Desde 16 de Julho de 2026, a Trade Republic passa a ter uma sucursal portuguesa e disponibiliza um IBAN nacional, tornando-se, depois do Revolut, um dos poucos bancos exclusivamente digitais com presença oficial no mercado português.

A novidade pode parecer apenas um detalhe burocrático, mas representa uma mudança importante. Pela primeira vez, passa a ser possível utilizar a Trade Republic como banco principal: receber o ordenado, domiciliar débitos diretos, fazer transferências, pagar compras com cartão e manter o dinheiro disponível a qualquer momento, enquanto recebe juros bastante acima da média do mercado.

Mas será que faz sentido mudar? E haverá algum "truque" escondido? Fui analisar todos os pormenores.

Como sabem, nenhum artigo é publicidade, nem recebo comissões de ninguém para falar seja do que for. É a minha análise pura e simples enquanto consumidor, para que depois possa fazer a sua própria avaliação.

O que muda com o IBAN português?

Até agora, quem abria conta na Trade Republic recebia um IBAN alemão. Como disclaimer devo dizer que sou utilizador da Trade Republic há vários anos e utilizo (ainda antes de ter IBAN português) esta plataforma para ter uma parte do meu fundo de emergência a render no saldo à ordem a taxa atual do BCE (hoje em 2,25%) e também para fazer os meus investimentos em ETF, ETC, ações e criptomoedas. Também uso outras corretoras e bancos.

Apesar de não ter IBAN português não impedir a utilização da conta, muitas pessoas continuavam a preferir manter o banco tradicional para receber o salário ou pagar as despesas do dia a dia.

Com a licença portuguesa atribuída pelo Banco de Portugal, a situação muda substancialmente.

A conta passa a ter um IBAN português (PT50), permitindo:

  • receber o ordenado;
  • domiciliar débitos diretos;
  • efetuar transferências nacionais;
  • utilizar um cartão de débito nas compras do dia a dia;
  • simplificar o tratamento fiscal dos juros recebidos, porque os juros recebidos mensalmente passam a ter retençõa na fonte e deixa de ser necessário declará-los no anexo J no IRS.

Na prática, a Trade Republic deixa de ser apenas uma plataforma de investimento para passar a funcionar como um banco digital completo.

Afinal, os 3% são reais?

Sim.

A Trade Republic está a oferecer 3% TANB sobre os primeiros 50.000 euros depositados na conta à ordem dos novos clientes.

Os juros são calculados diariamente e pagos todos os meses. Ou seja, assim que recebe o salário (ou transfere um valor qualquer), passa a receber 3% de juros sobre esse saldo sem ter nenhum trabalho. Isto é muito diferente da maioria dos bancos.

A exceção que conheço é a conta do Bankinter que no primeiro ano - e apenas com domiciliação de ordenado ou transferência de valores mínimos - oferece 5% e 2% no segundo ano e depois acaba.

Na Trade Republic, o dinheiro continua totalmente disponível. Não existe prazo mínimo de permanência nem qualquer obrigação de constituir um depósito a prazo.

É precisamente este detalhe que diferencia esta oferta da maioria das existentes no mercado português.

É uma campanha promocional?

Esta é uma das perguntas mais importantes.

Ao contrário do que acontece frequentemente na banca tradicional, não se trata de uma campanha promocional de três, seis ou doze meses.

Segundo a informação transmitida pela Trade Republic ao Contas-poupança, esta é uma estratégia de longo prazo. Não existe uma data de fim previamente definida.

A empresa explica que pretende manter esta remuneração enquanto existirem condições de mercado para o fazer.

Naturalmente, isso não significa que os 3% estejam garantidos para sempre. Caso a taxa venha a ser alterada no futuro, a Trade Republic garante que informará os clientes antecipadamente.

E quem já é cliente?

Aqui existe uma diferença importante. Podem mudar ou não para o IBAN português e serão contactados nesse sentido.

Os atuais clientes continuam a receber uma remuneração do saldo à ordem indexada à taxa de depósito do Banco Central Europeu, atualmente nos 2,25%.

Os novos clientes passam a beneficiar dos 3%.

É uma estratégia claramente destinada a captar novos utilizadores.

Continua a haver capital garantido?

Sim.

Os depósitos continuam protegidos até 100.000 euros, ao abrigo do sistema europeu de garantia de depósitos.

Isto significa que, do ponto de vista da proteção do dinheiro, a segurança é equivalente à existente na generalidade dos bancos europeus.

Nota: O Trade Republic não tem o seu dinheiro nos cofres deles. Usam alguns dos maiores bancos da Europa como parceiros para pouparem nos custos e poderem oferecer juros mais altos. Terá a garantia de depósitos de cada um deles, igual à dos bancos portugueses mas no respectivo país.

Acima de determinados valores, o dinheiro passa a estar em fundos monetários, com um tipo de garantia diferente. Se colocar valores muito altos deve ligar para o apoio ao cliente deles (que é em português 24h/7) para lhe explicarem bem esse detalhe.

Porque consegue pagar mais juros do que os bancos tradicionais?

A resposta é simples.

A Trade Republic não tem balcões físicos espalhados pelo país.

Tem muito menos funcionários, menos custos operacionais e praticamente toda a relação com os clientes acontece através da aplicação para telemóvel.

Além disso, a remuneração elevada faz parte da estratégia comercial da empresa para conquistar clientes.

Na prática, prefere investir dinheiro em pagar melhores juros do que em campanhas publicitárias tradicionais.

Quanto rende, na prática?

Se mantiver durante um ano:

  • 10.000 euros, receberá cerca de 300 euros brutos em juros;
  • 25.000 euros renderão aproximadamente 750 euros brutos;
  • 50.000 euros gerarão cerca de 1.500 euros brutos.

Sobre estes valores incide a retenção na fonte de IRS, feita automaticamente.

Uma das novidades da sucursal portuguesa é precisamente essa: deixa de ser necessário preencher o Anexo J apenas por causa destes juros. E os valores acumulam de um mês para o outro, desde que não os gaste, claro.

Há comissões?

A conta não tem comissão de manutenção.

O cartão físico custa 5 euros.

As compras efetuadas com o cartão são gratuitas.

Os levantamentos superiores a 100 euros também são gratuitos.

Abaixo desse valor existe uma comissão de 1 euro por levantamento, porque para poupar, não fizeram ainda um protocolo com a rede multibanco.

Ainda faltam algumas funcionalidades

Apesar das novidades, ainda existem algumas limitações.

A principal é a ausência de integração com o MB WAY.

A empresa diz que está a trabalhar nessa funcionalidade, mas ainda não existe uma data para a sua disponibilização.

O objetivo não é apenas pagar juros

A maioria das pessoas conhece a Trade Republic como uma plataforma para investir em ações, ETF, obrigações ou criptomoedas.

Mas essa fase parece estar a ficar para trás.

O verdadeiro objetivo passa agora por transformar a aplicação num banco completo e tornar-se a conta principal dos clientes.

Não é por acaso que a empresa afirma já ter cerca de 200 mil clientes em Portugal e pretende entrar no top 5 dos maiores bancos do país.

Vale a pena abrir conta?

Depende.

Quem procura apenas um local para guardar dinheiro disponível pode encontrar aqui uma das remunerações mais interessantes atualmente existentes em Portugal.

Quem privilegia balcões físicos, atendimento presencial ou serviços como o MB WAY poderá preferir esperar mais algum tempo.

Uma coisa parece evidente: a chegada de mais um banco digital com uma oferta tão agressiva aumenta a concorrência no mercado português.

E mesmo quem nunca abrir conta na Trade Republic pode acabar por beneficiar. Sempre que aparece um concorrente disposto a pagar mais pelos depósitos dos clientes, aumenta também a pressão sobre a banca tradicional para melhorar as suas próprias ofertas.

No fim de contas, é exatamente isso que um mercado concorrencial deve fazer: obrigar todos os bancos a tratar melhor o dinheiro dos clientes. Com estes dados, avalie se é uma opção para si: como conta principal ou como conta secundária para rentabilizar as suas poupanças.

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