Bancos

BCE volta a subir os juros para 2,5%: o que muda na prestação da casa e nas poupanças

O Banco Central Europeu voltou a aumentar as taxas de juro. É a segunda subida em 2026 e pode significar prestações da casa mais caras para algumas famílias nos próximos meses. Mas há também um lado positivo: quem tem dinheiro parado ou aplicado em depósitos poderá encontrar melhores taxas. O problema é que os juros das poupanças continuam, em muitos casos, muito abaixo da inflação.

Pedro Andersson

Como se esperava, o Banco Central Europeu (BCE) decidiu esta quinta-feira, 10 de setembro, aumentar novamente as taxas de juro em 25 pontos base, numa tentativa de travar o novo aumento da inflação provocado, sobretudo, pelo encarecimento da energia associado ao conflito no Médio Oriente.

É a segunda subida dos juros em 2026, depois do aumento decidido em junho. Em julho, o BCE tinha optado por não mexer nas taxas. O movimento representa uma inversão clara em relação ao ciclo anterior: entre junho de 2024 e 2025, o BCE tinha reduzido sucessivamente os juros à medida que a inflação recuava.

Agora, a preocupação voltou a ser exatamente a contrária.

A inflação voltou a ser um problema

A inflação na Zona Euro acelerou para 3,3% em agosto, depois dos 2,9% registados em julho. O objetivo do BCE continua a ser uma inflação de aproximadamente 2% no médio prazo.

O grande responsável pelo agravamento foi a energia. Os preços energéticos subiram 14,3% num ano na Zona Euro, segundo a estimativa rápida do Eurostat. Excluindo energia, a inflação estava bastante mais controlada, em 2,2%.

É precisamente aqui que está o dilema do BCE. A inflação atual não resulta principalmente de famílias que estejam a consumir excessivamente ou de salários a aumentar descontroladamente. Resulta, em grande parte, de um choque energético.

Mesmo assim, se os aumentos da energia começarem a passar para os transportes, alimentos, serviços, salários e restantes preços, a inflação pode tornar-se novamente persistente.

O BCE decidiu, por isso, atuar preventivamente.

Em Portugal a inflação também está a acelerar

Portugal não está imune.

O INE aponta para uma inflação de 3,3% em agosto, impulsionada pelo aumento dos combustíveis.

Isto significa que muitas famílias estão a enfrentar simultaneamente dois problemas.

Por um lado, voltaram a subir despesas como combustíveis e outros produtos afetados pelo preço da energia. Por outro, o dinheiro emprestado pelos bancos pode ficar mais caro.

É a combinação mais desagradável para um orçamento familiar: preços mais altos e crédito mais caro.

A prestação da casa vai subir já 0,25%?

Não necessariamente.

O BCE aumentou as suas taxas em 0,25 pontos percentuais, mas isso não significa que a Euribor vá automaticamente aumentar outros 0,25 pontos nem que a prestação da casa suba imediatamente.

Na realidade, os mercados já estavam há semanas a antecipar esta decisão.

A Euribor começou a subir muito antes da reunião do BCE.

Em agosto, as médias mensais utilizadas para rever os créditos à habitação ficaram em:

Euribor a 3 meses: 2,513%

Euribor a 6 meses: 2,713%

Euribor a 12 meses: 2,954%

Todas subiram relativamente a julho.

E a subida continuou em setembro. No dia 9 de setembro, a Euribor a seis meses estava nos 2,800% e a Euribor a 12 meses nos 3,138%, ambas em máximos de aproximadamente dois anos. A Euribor a três meses estava nos 2,626%.

Ou seja, parte significativa da subida agora anunciada pelo BCE já tinha sido antecipada pela Euribor.

A grande pergunta passa a ser outra: os mercados vão acreditar que esta foi a última subida ou que vêm mais aumentos?

É essa expectativa que poderá fazer maior diferença nas próximas semanas.

Quando é que a prestação muda?

Nos créditos à habitação com taxa variável, a taxa resulta normalmente da soma da Euribor ao spread contratado com o banco.

Num crédito indexado à Euribor a três meses, a revisão ocorre de três em três meses. Se for Euribor a seis meses, ocorre semestralmente. Com Euribor a 12 meses, apenas uma vez por ano.

Além disso, não é usada simplesmente a cotação da Euribor do dia da revisão. É utilizada a média mensal do indexante referente ao mês anterior, de acordo com as regras aplicáveis ao contrato.

Portanto, alguém que tenha uma prestação revista apenas daqui a alguns meses ainda não sabe exatamente qual será a Euribor aplicada.

Há famílias que já estão a pagar mais em setembro

Mesmo antes desta decisão do BCE, as prestações já estavam a aumentar.

Uma simulação feita pela DECO Proteste para um empréstimo de 150 mil euros, a 30 anos, com um spread de 1%, mostra bem a dimensão da mudança.

Num crédito indexado à Euribor a 12 meses revisto em setembro, a prestação passa para cerca de 712 euros, mais 70,48 euros por mês do que há um ano.

Com Euribor a seis meses, a subida face à última revisão é de cerca de 47 euros por mês.

Na Euribor a três meses, o aumento é de aproximadamente 24 euros.

Num ano, 70 euros por mês representam cerca de 840 euros retirados ao orçamento familiar.

É dinheiro que deixa de estar disponível para alimentação, combustível, férias, poupança ou investimento. Vai ter de cortar despesas ou encontrar esse dinheiro noutro lado.

E se a Euribor subir mais 0,25 pontos?

É possível fazer uma simulação puramente indicativa para perceber a ordem de grandeza.

Imagine-se um crédito de 150 mil euros, a 30 anos, com spread de 1%. Com uma taxa total próxima de 3,71%, a prestação ronda atualmente os 692 euros.

Se o indexante subisse mais 0,25 pontos percentuais e tudo o resto permanecesse igual, a prestação passaria para aproximadamente 713 euros.

São mais cerca de 21 euros por mês ou 257 euros por ano.

Num empréstimo de 200 mil euros a 30 anos, o mesmo aumento de 0,25 pontos poderia representar aproximadamente mais 29 euros por mês.

Estes valores são apenas exemplos. O impacto real depende do capital em dívida, prazo restante, spread, indexante e momento da revisão.

E é importante repetir: a subida do BCE desta quinta-feira não significa automaticamente uma subida adicional de 0,25 pontos da Euribor.

E quem tem taxa fixa?

Quem tem um crédito com taxa fixa durante todo o contrato não sofre qualquer alteração na prestação devido a esta decisão.

Quem tem taxa mista também fica protegido enquanto decorrer o período de taxa fixa.

O problema surgirá apenas quando terminar esse período e o contrato passar para taxa variável, caso as taxas continuem elevadas nessa altura.

Quem está a aproximar-se do final do período de taxa fixa deve, por isso, começar a fazer contas alguns meses antes. Não deve esperar pela primeira prestação mais alta.

Novos créditos também podem ficar mais caros

O efeito não se limita aos créditos à habitação que já existem.

Taxas de juro mais elevadas tendem também a encarecer novos créditos à habitação, crédito automóvel, crédito pessoal e financiamento às empresas.

Mesmo as propostas de taxa fixa ou mista podem ser revistas pelos bancos porque o custo de financiamento das instituições e as taxas de mercado utilizadas para definir essas propostas também mudam.

Quem estiver neste momento a comprar casa deve, portanto, pedir propostas atualizadas a vários bancos e comparar sobretudo a TAEG e o MTIC, e não apenas o spread.

Uma diferença aparentemente pequena na taxa de juro durante 20, 30 ou 35 anos pode representar muitos milhares de euros.

Para quem tem poupanças há uma boa notícia

Há um lado positivo neste aumento.

Quando as taxas do BCE sobem, aumenta a margem para os bancos remunerarem melhor os depósitos.

Aliás, isso já estava a acontecer antes da decisão desta quinta-feira.

A taxa média dos novos depósitos a prazo de particulares em Portugal aumentou em julho pelo sexto mês consecutivo, para 1,59%. O montante aplicado pelas famílias em novos depósitos atingiu mesmo um máximo histórico de 13.704 milhões de euros.

Mas há aqui um enorme "mas".

Uma taxa média bruta de 1,59% continua muito abaixo de uma inflação superior a 3%.

Depois de descontados 28% de IRS, um depósito de 10 mil euros a 1,59% rende aproximadamente 114 euros líquidos num ano.

Com uma inflação de 3,3%, o poder de compra desse dinheiro continua a diminuir.

É por isso que não basta perguntar se um depósito "dá juros". A pergunta correta é: quanto rende depois de impostos e quanto está a inflação?

E os Certificados de Aforro?

Aqui surge outra consequência interessante.

A taxa das novas subscrições dos Certificados de Aforro Série F está em setembro nos 2,5% brutos.

A fórmula da Série F acompanha a Euribor a três meses, mas tem atualmente um limite máximo de 2,5% para a taxa base.

Isto significa que, mesmo que a Euribor continue a subir acima desse nível, a taxa base das novas subscrições não ultrapassa os 2,5%, enquanto as regras não forem alteradas.

Portanto, ao contrário do que poderia parecer, uma nova subida das taxas não significa necessariamente que os Certificados de Aforro passem a pagar mais.

Os depósitos bancários, pelo contrário, não têm esse teto administrativo e algumas instituições poderão começar a apresentar taxas superiores.

É precisamente nestas fases que vale a pena voltar a comparar.

O que deve fazer agora quem tem crédito ou poupanças?

Não vale a pena tentar adivinhar onde estarão as taxas dentro de seis meses. Há decisões concretas que podem ser tomadas já:

  • Verificar no contrato ou no homebanking se o crédito tem taxa fixa, mista ou variável e qual é a Euribor utilizada;
  • confirmar o mês da próxima revisão da prestação e começar a preparar o orçamento para uma eventual subida;
  • pedir ao banco uma simulação para taxa fixa ou mista, mas comparar também propostas de outros bancos;
  • avaliar se compensa transferir o crédito, sobretudo se ainda existir um capital elevado em dívida;
  • simular o efeito de uma amortização antecipada, comparando a poupança de juros com a rentabilidade que esse dinheiro poderia obter noutro local;
  • quem tem dinheiro parado à ordem deve voltar a comparar depósitos, Certificados de Aforro e outras alternativas adequadas ao prazo e ao risco;
  • não subscrever automaticamente a primeira proposta do banco. Com taxas a subir, a diferença entre instituições tende a aumentar e negociar pode representar centenas ou milhares de euros.

Ainda não voltámos a 2023

Há razões para preocupação, mas convém manter alguma perspetiva.

A inflação atual tem uma origem muito concentrada na energia. A inflação subjacente continua bastante mais baixa e o crescimento dos salários está a moderar, fatores que reduzem, pelo menos por enquanto, o risco de uma espiral semelhante à vivida depois de 2021.

O próprio BCE admite que existe uma grande incerteza e que os riscos são simultaneamente de inflação mais elevada e de menor crescimento económico.

Os mercados continuam a admitir novas subidas de juros ainda em 2026 e em 2027, mas isso não significa que estejam garantidas. Tudo dependerá da duração do conflito, dos preços do petróleo e do gás e, sobretudo, de saber se o choque energético passa para o resto da economia.

Para as famílias portuguesas, a estratégia mais prudente é simples: não esperar que Frankfurt resolva o orçamento familiar.

Quem tem crédito deve fazer contas assumindo alguma margem para taxas mais elevadas. Quem tem poupanças deve exigir mais ao dinheiro que tem parado. E quem está a pensar contrair uma nova dívida deve testar se consegue suportar a prestação não apenas hoje, mas também num cenário menos favorável.

Os juros voltaram a subir. A partir de agora, o mais importante não é saber apenas o que decidiu o BCE, mas perceber quanto essa decisão pode custar — ou render — em euros no orçamento de cada família. Faça as suas contas.

Últimas