Os relatórios sucedem-se e a conclusão tende sempre para a mesma: as pensões vão ser mais baixas e a idade da reforma cada vez mais tardia. Fizemos as contas a três formas diferentes de poupar para a reforma e a diferença, ao fim de 30 anos, pode ultrapassar os 85 mil euros.
Explicámos estas contas na reportagem da semana passada do Contas Poupança. Pode vê-la aqui.
Já sabe quanto vai receber quando se reformar?
É uma das perguntas que muitas pessoas têm medo de fazer. Mas a resposta está a um clique de distância: basta consultar a página da Segurança Social Direta. Se o valor for mais baixo do que aquilo que espera receber, a pergunta seguinte é inevitável: já sabe onde vai buscar a diferença para manter o seu padrão de vida?
A verdade é que nem todas as família conseguem poupar todos os meses. Mas quem consegue, muitas vezes, limita-se a ir juntando o dinheiro numa conta, sem o pôr a render. E é aí que entram ferramentas como os PPR (Planos Poupança-Reforma) e os fundos de pensões, que têm ajudado cada vez mais portugueses a chegar à reforma com 100 mil euros, 200 mil euros ou mais.
Como funciona, afinal, investir num PPR
Subscrever um PPR ou um fundo de pensões é, na prática, investir em bolsa e em empresas cotadas, mas sem comprar as ações diretamente. É o banco ou o gestor do fundo que compra e vende os ativos, e o subscritor recebe a média dessa valorização (ou desvalorização).
A diferença para comprar ações a título individual é grande. Imagine que tem mil euros para investir. Se comprar ações da Coca-Cola, por exemplo, ficará com cerca de 12 ações e mais nada. Se investir esse mesmo valor num fundo, pode passar a ter uma fatia de 50 empresas diferentes dentro da mesma carteira.
Isto traz duas vantagens claras:
- Diversificação do risco, fica exposto a vários setores e empresas, e não apenas a uma;
- Gestão profissional, não é o subscritor que decide o que comprar ou vender a cada momento.
Tem, no entanto, uma desvantagem: paga uma comissão de gestão, que é o preço a pagar por estas vantagens.
Vamos às contas: quanto rende poupar 100 euros por mês
Este é o exercício mais importante da reportagem. Imagine que poupa 100 euros por mês, durante 30 anos, num esforço total de 36.000 euros. Consoante o produto escolhido, o resultado final pode ser muito diferente:
- Num depósito a prazo a render 1,5%: cerca de 45.486 euros;
- Em certificados de aforro: cerca de 57.424 euros;
- Num PPR ou fundo de pensões que renda, em média e sem garantia, 7% ao ano: mais de 122.000 euros.
Note que o esforço de poupança é exatamente o mesmo nos três casos. O que muda é para onde o dinheiro é canalizado.
Quanto têm rendido os PPR nos últimos anos
Muitos fogem dos PPR por achar que investir em bolsa é como ir ao casino, ou que é um produto só para quem já tem muito dinheiro. E, por desconhecerem como funciona, acabam por escolher apenas produtos de capital garantido que historicamente, rendem menos.
De acordo com dados recentes da APFIPP, nos últimos 12 meses os cinco PPR mais rentáveis cresceram entre 20% e 27%. Olhando para os últimos cinco anos, com altos e baixos incluídos, a média situa-se entre 6% e quase 9% ao ano. Estes números estão, como é natural, sempre a mudar.
Para comparar os PPR disponíveis em cada momento, pode recorrer ao comparador de PPR da CMVM ou ao comparador da ASF, filtrando por prazo e ordenando também pelo valor das comissões que têm impacto direto na rentabilidade final. Note que pode haver PPR que não estão nestas listas por opção ou por erro. Mas fica logo com uma ideia muito geral das oportunidades que tem.
É preciso aceitar as oscilações
Para conseguir estas rentabilidades, é preciso aceitar ver o valor investido subir e descer ao longo dos anos, sem entrar em pânico e resgatar a meio do percurso.
A longo prazo, o mercado acionista tende a valorizar entre 8% e 10% ao ano. Mas há anos em que pode cair 20% e anos em que pode subir 20%. Por isso, a conta que interessa fazer é sempre a média acumulada acima de cinco anos, e não o resultado de um único ano isolado.
Para quem é mais jovem e não vai precisar do dinheiro a curto prazo, investir em ações, direta ou indiretamente, através de um PPR ou Fundo de pensões, tende a compensar. Mesmo que um determinado ano seja negativo, a tendência de longo prazo costuma ser de subida.
Que vantagens fiscais tem o PPR
Além da rentabilidade, há benefícios fiscais a considerar:
- Pode descontar entre 300 e 400 euros no IRS, consoante a idade;
- No momento do resgate, paga apenas 8% de imposto sobre os lucros, nas condições previstas na lei;
- Se não estiver satisfeito com o desempenho do PPR, pode transferi-lo para outro sem qualquer penalização nem perda de benefícios fiscais, e fazê-lo tantas vezes quantas entender.
É importante relembrar que ninguém é obrigado a resgatar o PPR na data da reforma, pode resgatar mais cedo ou mais tarde. Caso resgate mais cedo fora das condições previstas na lei, é importante verificar se não o declarou no IRS para não ter de devolver ao estado o benefício fiscal. Se o produto estiver a valorizar nessa altura, pode continuar com ele e ir levantando apenas o que precisar ou não mexer em nada. A decisão é sempre do subscritor, a menos que o contrato tenha uma data de vencimento definida. Mesmo nesse caso, é possível transferir o PPR para outro sem essa limitação, antes de a data chegar.
Quem já está reformado também pode subscrever um PPR. Não vai poder beneficiar da dedução à coleta do IRS, mas o produto continua a fazer sentido do ponto de vista da rentabilidade.
PPR ou fundo de pensões: qual a diferença
Os fundos de pensões são, sobretudo, oferecidos por algumas empresas aos seus colaboradores. Têm vantagens fiscais interessantes, como por exemplo não pagar IRS sobre o valor que a empresa entrega, e à saída pode haver isenção de impostos até cerca de 11 mil euros.
A limitação principal está no acesso ao dinheiro: um fundo de pensões só pode, em regra, ser resgatado na idade da reforma, praticamente sem exceções.
Já o PPR pode ser resgatado a qualquer momento. Por isso, a escolha entre os dois depende sobretudo do horizonte temporal de cada pessoa:
- Se não tenciona mexer no dinheiro antes da reforma, o fundo de pensões pode fazer mais sentido;
- Se prefere manter a flexibilidade de resgatar em qualquer altura, o PPR é a opção mais indicada.
O que deve fazer agora
- Consultar a página da Segurança Social Direta para saber, hoje, quanto pode vir a receber de pensão;
- Comparar PPR através do comparador da CMVM ou da ASF, olhando à rentabilidade histórica mas também ao valor das comissões;
- Perceber se o seu perfil se adequa mais a um PPR (mais flexível) ou a um fundo de pensões (normalmente ligado à entidade empregadora);
- Não tratar estas poupanças como um saldo para verificar todas as semanas, o retorno destes produtos mede-se em décadas, não em meses.
Pode ler todos os meses o artigo quem que acompanhamos o desempenho de 15 PPR.