O objetivo da sugestão da Autoridade da Concorrência é simples: facilitar a comparação entre bancos, incentivar a concorrência e tornar mais fácil a mudança para instituições que ofereçam melhores condições.
A proposta faz parte da versão final do estudo “Mobilidade dos consumidores na banca a retalho em Portugal”, que apresenta 17 recomendações destinadas ao Banco de Portugal, ao Governo e à Assembleia da República para reduzir os obstáculos à mobilidade dos clientes entre bancos.
Os bancos portugueses continuam a pagar menos
A recomendação surge acompanhada de um dado que merece a atenção de qualquer aforrador.
Segundo a Autoridade da Concorrência, a remuneração média dos depósitos a prazo em Portugal continua abaixo da média da zona euro.
Nos novos depósitos a prazo até um ano, os juros médios pagos aos particulares foram:
- Portugal: 1,37%
- Média da zona euro: 1,77%
No caso das empresas, a diferença também existe:
- Portugal: 1,60%
- Média da zona euro: 1,91%
A AdC lembra que os depósitos são a principal fonte de financiamento dos bancos e representam cerca de 73,8% dos seus ativos. Ou seja, os bancos utilizam o dinheiro depositado pelos clientes para financiar grande parte da sua atividade. Ganham dinheiro com o seu dinheiro, enquanto os clientes perdem dinheiro porque os juros rendem menos do que a inflação.
Quanto maior for a concorrência entre bancos, maior tende a ser a pressão para oferecerem melhores taxas de juro aos clientes.
Quanto pode perder por não comparar?
À primeira vista, uma diferença de algumas décimas na taxa de juro pode parecer pouco significativa.
Mas veja este exemplo.
Se aplicar 20.000 euros durante um ano:
- A 1,37% recebe cerca de 274 euros brutos em juros.
- A 1,77% recebe cerca de 354 euros brutos.
A diferença é de cerca de 80 euros num único ano, sem aumentar o risco da aplicação. Basta escolher um banco que remunere melhor o depósito.
Em montantes superiores ou em vários anos consecutivos, essa diferença pode representar várias centenas de euros.
Sá para ter uma ideia, os Certificados de Aforro e do Tesouro estão a render 2,35%.
A Trade Republic está a oferecer 3% ao ano à ordem para novos clientes.
E facilmente um "bom" fundo PPR cresce 5% em média se contemplar um prazo longo de 5 ou mais anos.
O ETF SP500 tem rendido em média cerca de 10% ao ano ao longo das últimas décadas (com altos e baixos).
O que pretende mudar a Autoridade da Concorrência?
Atualmente, o Portal do Cliente Bancário, do Banco de Portugal, disponibiliza um comparador de comissões bancárias, permitindo comparar custos como manutenção de conta, cartões ou transferências.
A Autoridade da Concorrência considera que essa ferramenta deveria ser alargada para incluir também os produtos de poupança, nomeadamente os depósitos a prazo.
Além disso, defende que o comparador:
- inclua toda a informação relevante sobre cada oferta;
- permita aplicar filtros personalizados;
- apresente os resultados de forma mais clara;
- disponibilize os dados para que outras entidades possam também desenvolver ferramentas de comparação.
Há mais recomendações para facilitar a mudança de banco
O estudo apresenta ainda várias propostas destinadas a tornar mais simples mudar de banco.
Entre elas estão:
- criar regras de informação mais claras para contas com vários produtos associados;
- desenvolver indicadores de satisfação dos clientes que mudam de banco;
- estabelecer metas anuais para as instituições financeiras;
- estudar a possibilidade de transferir mais facilmente depósitos a prazo e contas poupança entre bancos;
- avaliar soluções de portabilidade da identificação bancária dos clientes.
O objetivo é reduzir as dificuldades que muitos consumidores ainda sentem quando pretendem mudar de instituição financeira.
O que pode fazer já para ganhar mais com as suas poupanças?
Não vale a pena esperar que este comparador oficial seja criado.
A recomendação da Autoridade da Concorrência não obriga o Banco de Portugal a implementar a medida. Trata-se apenas de uma proposta que poderá ou não avançar.
Entretanto, há várias formas de aumentar a rentabilidade das poupanças:
- compare regularmente as taxas oferecidas por diferentes bancos;
- não assuma que o banco onde recebe o ordenado oferece os melhores depósitos;
- quando um depósito termina, negoceie uma nova taxa antes de renovar automaticamente;
- considere bancos digitais ou outras instituições autorizadas a operar em Portugal, que muitas vezes apresentam remunerações mais competitivas.
A mensagem mais importante
Nos últimos anos, os bancos aumentaram rapidamente os juros cobrados no crédito à habitação quando as taxas do BCE subiram. No entanto, demoraram muito mais tempo a refletir essa subida na remuneração dos depósitos.
É precisamente essa falta de concorrência que a Autoridade da Concorrência pretende combater.
Enquanto isso não acontece, a melhor defesa continua a ser a informação. Comparar as ofertas disponíveis pode ser uma das formas mais simples de aumentar o rendimento das suas poupanças, sem assumir qualquer risco adicional.