Bancos

Autoridade da Concorrência quer comparador de depósitos. Objetivo é ajudar os portugueses a ganhar mais juros

Se tem dinheiro parado num depósito a prazo, poderá vir a ser mais fácil perceber se o banco onde está lhe está a pagar um juro competitivo. A Autoridade da Concorrência (AdC) recomenda ao Banco de Portugal que crie um comparador oficial das taxas de juro dos depósitos a prazo, semelhante ao comparador de comissões bancárias que já existe. Enquanto isso não acontece, tem de procurar manualmente agulha em palheiro. Ou usar as dicas do Contas-poupança.

Pedro Andersson

O objetivo da sugestão da Autoridade da Concorrência é simples: facilitar a comparação entre bancos, incentivar a concorrência e tornar mais fácil a mudança para instituições que ofereçam melhores condições.

A proposta faz parte da versão final do estudo “Mobilidade dos consumidores na banca a retalho em Portugal”, que apresenta 17 recomendações destinadas ao Banco de Portugal, ao Governo e à Assembleia da República para reduzir os obstáculos à mobilidade dos clientes entre bancos.

Os bancos portugueses continuam a pagar menos

A recomendação surge acompanhada de um dado que merece a atenção de qualquer aforrador.

Segundo a Autoridade da Concorrência, a remuneração média dos depósitos a prazo em Portugal continua abaixo da média da zona euro.

Nos novos depósitos a prazo até um ano, os juros médios pagos aos particulares foram:

  • Portugal: 1,37%
  • Média da zona euro: 1,77%

No caso das empresas, a diferença também existe:

  • Portugal: 1,60%
  • Média da zona euro: 1,91%

A AdC lembra que os depósitos são a principal fonte de financiamento dos bancos e representam cerca de 73,8% dos seus ativos. Ou seja, os bancos utilizam o dinheiro depositado pelos clientes para financiar grande parte da sua atividade. Ganham dinheiro com o seu dinheiro, enquanto os clientes perdem dinheiro porque os juros rendem menos do que a inflação.

Quanto maior for a concorrência entre bancos, maior tende a ser a pressão para oferecerem melhores taxas de juro aos clientes.

Quanto pode perder por não comparar?

À primeira vista, uma diferença de algumas décimas na taxa de juro pode parecer pouco significativa.

Mas veja este exemplo.

Se aplicar 20.000 euros durante um ano:

  • A 1,37% recebe cerca de 274 euros brutos em juros.
  • A 1,77% recebe cerca de 354 euros brutos.

A diferença é de cerca de 80 euros num único ano, sem aumentar o risco da aplicação. Basta escolher um banco que remunere melhor o depósito.

Em montantes superiores ou em vários anos consecutivos, essa diferença pode representar várias centenas de euros.

Sá para ter uma ideia, os Certificados de Aforro e do Tesouro estão a render 2,35%.

A Trade Republic está a oferecer 3% ao ano à ordem para novos clientes.

E facilmente um "bom" fundo PPR cresce 5% em média se contemplar um prazo longo de 5 ou mais anos.

O ETF SP500 tem rendido em média cerca de 10% ao ano ao longo das últimas décadas (com altos e baixos).

O que pretende mudar a Autoridade da Concorrência?

Atualmente, o Portal do Cliente Bancário, do Banco de Portugal, disponibiliza um comparador de comissões bancárias, permitindo comparar custos como manutenção de conta, cartões ou transferências.

A Autoridade da Concorrência considera que essa ferramenta deveria ser alargada para incluir também os produtos de poupança, nomeadamente os depósitos a prazo.

Além disso, defende que o comparador:

  • inclua toda a informação relevante sobre cada oferta;
  • permita aplicar filtros personalizados;
  • apresente os resultados de forma mais clara;
  • disponibilize os dados para que outras entidades possam também desenvolver ferramentas de comparação.

Há mais recomendações para facilitar a mudança de banco

O estudo apresenta ainda várias propostas destinadas a tornar mais simples mudar de banco.

Entre elas estão:

  • criar regras de informação mais claras para contas com vários produtos associados;
  • desenvolver indicadores de satisfação dos clientes que mudam de banco;
  • estabelecer metas anuais para as instituições financeiras;
  • estudar a possibilidade de transferir mais facilmente depósitos a prazo e contas poupança entre bancos;
  • avaliar soluções de portabilidade da identificação bancária dos clientes.

O objetivo é reduzir as dificuldades que muitos consumidores ainda sentem quando pretendem mudar de instituição financeira.

O que pode fazer já para ganhar mais com as suas poupanças?

Não vale a pena esperar que este comparador oficial seja criado.

A recomendação da Autoridade da Concorrência não obriga o Banco de Portugal a implementar a medida. Trata-se apenas de uma proposta que poderá ou não avançar.

Entretanto, há várias formas de aumentar a rentabilidade das poupanças:

  • compare regularmente as taxas oferecidas por diferentes bancos;
  • não assuma que o banco onde recebe o ordenado oferece os melhores depósitos;
  • quando um depósito termina, negoceie uma nova taxa antes de renovar automaticamente;
  • considere bancos digitais ou outras instituições autorizadas a operar em Portugal, que muitas vezes apresentam remunerações mais competitivas.

A mensagem mais importante

Nos últimos anos, os bancos aumentaram rapidamente os juros cobrados no crédito à habitação quando as taxas do BCE subiram. No entanto, demoraram muito mais tempo a refletir essa subida na remuneração dos depósitos.

É precisamente essa falta de concorrência que a Autoridade da Concorrência pretende combater.

Enquanto isso não acontece, a melhor defesa continua a ser a informação. Comparar as ofertas disponíveis pode ser uma das formas mais simples de aumentar o rendimento das suas poupanças, sem assumir qualquer risco adicional.

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