Para quem tem um crédito com taxa variável, esta é uma notícia que merece atenção. Não significa que a prestação vá aumentar imediatamente para todos, porque depende da Euribor a que o contrato está indexado e da data da próxima revisão. Mas mostra que, pelo menos por agora, o ciclo de descida parece ter sido interrompido.
Juros sobem novamente
A taxa de juro implícita no conjunto dos contratos de crédito à habitação subiu para 3,101% em junho, quando em maio era de 3,065%. É uma subida de 3,6 pontos base e representa a primeira inversão depois das quedas registadas em abril e maio.
Nos contratos celebrados nos últimos três meses, a taxa também aumentou, passando de 2,820% para 2,853%.
À primeira vista, uma diferença de algumas centésimas pode parecer pouco significativa. Mas, quando aplicada a empréstimos de centenas de milhares de euros durante várias décadas, traduz-se em prestações mais elevadas.
Prestação média aumenta
O INE indica que a prestação média dos créditos à habitação passou para 411 euros por mês, mais 6 euros do que em maio e mais 17 euros do que no mesmo mês do ano passado.
Nos contratos mais recentes, o aumento foi ainda mais expressivo: a prestação média subiu 23 euros num único mês, atingindo 715 euros, o que representa uma subida homóloga de 13,5%.
Quase metade da prestação ainda são juros
Um dos dados mais relevantes do comunicado do INE é que 49,1% da prestação média corresponde ao pagamento de juros.
Na prática, dos 411 euros pagos em média todos os meses:
- 202 euros servem apenas para pagar juros;
- 209 euros amortizam efetivamente o empréstimo.
Ou seja, em muitos casos continua a acontecer que praticamente metade da prestação não reduz a dívida ao banco.
As famílias continuam a dever mais dinheiro
O capital médio em dívida nos contratos de crédito à habitação voltou igualmente a aumentar.
Segundo o INE, o valor médio passou para 78.865 euros, mais 608 euros do que no mês anterior.
Este aumento resulta da conjugação de vários fatores, entre eles a celebração de novos empréstimos com montantes mais elevados devido ao aumento do preço das casas.
Porque voltaram os juros a subir?
A explicação está sobretudo na política monetária europeia.
Depois de a inflação ter voltado a acelerar, impulsionada sobretudo pela subida dos preços da energia e dos combustíveis, o Banco Central Europeu decidiu, a 11 de junho, aumentar novamente as taxas diretoras em 0,25 pontos percentuais.
As taxas Euribor reagiram imediatamente e começaram novamente a subir.
Como a maioria dos créditos à habitação em Portugal está indexada à Euribor, esse aumento acaba por refletir-se nas prestações pagas pelas famílias, embora apenas na data prevista para a revisão do contrato.
O que pode fazer para pagar menos?
A pior decisão é assumir que não há nada a fazer.
Mesmo quando os juros sobem, existem várias formas de reduzir o custo do crédito.
1. Verifique o spread
Se contratou o empréstimo há vários anos, é possível que esteja a pagar um spread superior ao que os bancos oferecem atualmente.
Há instituições a praticar spreads abaixo de 0,70% para determinados perfis de clientes.
Uma simples renegociação pode representar dezenas de euros de poupança por mês.
2. Peça propostas a outros bancos
Mesmo que esteja satisfeito com o banco onde tem o crédito, vale a pena pedir simulações noutros.
Ter propostas concorrentes dá-lhe um forte argumento para negociar melhores condições sem mudar de banco.
3. Renegocie os seguros
Em muitos casos, o seguro de vida e o seguro multirriscos representam uma parte significativa do custo mensal.
Se o contrato permitir contratar esses seguros fora do banco, pode conseguir poupanças anuais de centenas de euros.
4. Analise a taxa fixa
Quem está preocupado com novas subidas pode pedir ao banco simulações com taxa fixa ou taxa mista.
Nem sempre é a melhor solução, mas vale a pena comparar o custo total e perceber quanto custaria garantir uma prestação estável durante alguns anos.
5. Amortize, se tiver dinheiro parado
Se possui poupanças muito superiores ao fundo de emergência e estas estão a render menos do que a taxa que paga pelo crédito, pode fazer sentido amortizar parte da dívida.
Cada caso deve ser analisado individualmente, mas uma amortização parcial reduz imediatamente o capital sobre o qual são calculados os juros.
Ainda vai subir mais?
Essa é agora a grande dúvida.
A próxima reunião do Banco Central Europeu realiza-se esta semana e será decisiva para perceber se o aumento de junho foi apenas um episódio isolado ou o início de um novo ciclo de subida das taxas de juro.
Grande parte dos analistas considera possível pelo menos mais uma subida das taxas diretoras até ao final do ano. Se esse cenário se confirmar, as Euribor poderão continuar a subir e as prestações dos créditos com taxa variável poderão voltar a aumentar nos próximos meses.
Por isso, este pode ser um bom momento para olhar novamente para o seu contrato. Mesmo que não consiga controlar a evolução das taxas de juro, pode controlar muitas das condições do seu crédito. E, em muitos casos, uma renegociação feita a tempo pode valer centenas ou mesmo milhares de euros de poupança ao longo da vida do empréstimo.