Se receber uma chamada deste género, a recomendação do Fisco é muito simples: ignore a chamada e não siga quaisquer instruções.
A AT confirmou, num alerta publicado a 20 de agosto, que está em curso uma campanha de vishing, ou seja, uma tentativa de fraude realizada através de chamadas telefónicas ou mensagens de voz. Neste caso concreto, é dito aos contribuintes que existe uma alegada divergência na declaração de IRS e é-lhes pedido que carreguem numa determinada tecla para a corrigir.
O que é o “vishing”?
O nome pode ser pouco conhecido, mas o método é cada vez mais comum.
O vishing junta as palavras inglesas voice e phishing. Em vez de receber um e-mail falso, a tentativa de manipulação é feita por telefone. O objetivo é levar a vítima a fornecer informações, seguir determinadas instruções ou realizar operações que não faria se soubesse que estava a falar com um burlão.
O Centro Nacional de Cibersegurança (CNCS) explica que estas técnicas recorrem à chamada engenharia social: em vez de atacar diretamente os sistemas informáticos, os criminosos tentam manipular a própria pessoa.
Neste caso, usam o nome da Autoridade Tributária para dar credibilidade ao telefonema.
E há uma razão para a história parecer plausível: as divergências de IRS existem mesmo.
Uma divergência no IRS pode ser verdadeira
É precisamente aqui que a burla pode apanhar algumas pessoas desprevenidas.
Depois da entrega da declaração, a AT cruza os dados declarados pelo contribuinte com a informação que consta das suas bases de dados. Pode surgir uma divergência, por exemplo, relacionada com rendimentos, retenções na fonte ou deduções. Também pode ser necessário apresentar documentos que comprovem determinadas informações.
Quando existe efetivamente uma divergência, ela pode ser consultada diretamente no Portal das Finanças. A própria AT explica que basta entrar no portal, pesquisar por “Divergências de IRS”, selecionar “Consultar Divergências”, autenticar-se e consultar o detalhe da situação.
Portanto, se alguém telefonar a dizer que existe um problema com o IRS, não tem de acreditar nem de resolver absolutamente nada durante a chamada.
Desligue e confirme diretamente no Portal das Finanças.
Esta é provavelmente a regra mais importante para evitar este tipo de burlas.
Também há e-mails e SMS falsos
O alerta não se limita aos telefonemas.
A Autoridade Tributária avisa que continuam igualmente a circular e-mails fraudulentos que tentam levar os contribuintes a carregar em determinados links, bem como SMS falsos destinados a obter ou validar dados pessoais.
A AT já tinha reforçado, num alerta anterior, algumas regras importantes que permitem distinguir uma comunicação legítima de uma tentativa de fraude:
- os e-mails oficiais da AT são enviados a partir de endereços terminados em @at.gov.pt;
- a AT não envia e-mails ou SMS com links para inserir, alterar ou confirmar dados pessoais ou fiscais;
- a AT não solicita pagamentos através de links enviados por e-mail ou SMS;
- as operações devem ser feitas diretamente no Portal das Finanças.
Há uma regra prática que vale a pena guardar: nunca entre no Portal das Finanças através de um link que chegou numa mensagem suspeita. Abra o navegador e escreva diretamente o endereço do Portal das Finanças.
Recebeu uma chamada sobre uma divergência no IRS? Faça isto
Se receber um telefonema deste género:
- Não carregue em nenhuma tecla.
- Não forneça NIF, passwords, códigos recebidos por SMS, dados bancários ou do cartão.
- Não faça pagamentos nem transferências.
- Desligue a chamada.
- Entre diretamente no Portal das Finanças.
- Pesquise por “Divergências de IRS” e verifique se existe efetivamente alguma situação pendente.
- Consulte também a área de Comunicações do Portal das Finanças, onde ficam disponíveis comunicações oficiais enviadas centralmente pela AT.
Se existir realmente uma divergência, poderá então analisá-la e seguir as instruções que aparecem dentro da sua área autenticada do Portal das Finanças.
O vishing está a aumentar
Este tipo de fraude não é residual.
De acordo com dados do Centro Nacional de Cibersegurança relativos a 2024, o vishing foi mesmo o tipo de engenharia social mais frequentemente registado pelo CERT.PT: foram identificados 170 incidentes, correspondentes a 18,31% dos casos, um aumento de 136% relativamente ao ano anterior.
Seguiram-se a chamada CEO Fraud, com 17,89% dos casos, o falso recrutamento, com cerca de 11,6%, e as conhecidas burlas “Olá, Pai… Olá, Mãe”, com cerca de 8,7%.
O mais preocupante é que estas fraudes estão cada vez mais convincentes. Os criminosos conhecem os procedimentos normais das instituições e usam expressões verdadeiras — como “divergência de IRS”, “reembolso”, “situação tributária” ou “regularização” — para criar um sentimento de urgência e levar a pessoa a agir antes de pensar.
A melhor defesa é interromper o contacto
Não precisa de perceber se a voz é verdadeira, se o número parece português ou se quem está do outro lado conhece alguns dos seus dados.
Quando alguém telefona inesperadamente em nome de um banco, das Finanças, da Segurança Social ou de outra entidade e pede uma ação imediata, a solução mais segura é sempre a mesma:
interrompa o contacto e procure a entidade pelos canais oficiais.
No caso do IRS é ainda mais simples. Se existir uma verdadeira divergência, ela não desaparece por desligar o telefone. Pode entrar tranquilamente no Portal das Finanças e confirmar.
E se não estiver lá nenhuma divergência, já sabe que o telefonema que recebeu não era para ajudar a resolver o IRS. Era para tentar criar um problema muito maior.